* Parceria de Miriam Castilho e M. D. Amado
Eu não sei viver sem paixão. É uma doença. Parece que tenho que viver exercitando o coração. Sinto e ouço o correr do sangue nas veias, quando me apaixono. Os olhos enxergam apenas o que querem. Os ouvidos se calam aos conselhos daqueles que nos querem bem...
Meu corpo padeceu diante de seu toque. Ele me fez sua vítima/seguidora fiel. Perdi por instantes minha sede de viver por mim mesma.
Dias depois eu já estava em seus braços, naquela cabana simples, rústica e escura, no meio da floresta. Deixei amigos e família. Amei intensamente aquele homem até que um dia todos os meus sonhos se despedaçaram. O coração antes inundado de paixão ficou enegrecido por sentimentos sombrios.
Desconfiança...
Não sei se real ou imaginária, mas vozes roucas sopravam em meus ouvidos coisas que nunca antes ousara imaginar. Meu cérebro, induzido por essas vozes, começou a processar imagens, vultos, rostos, pessoas...
Ele percebeu minha confusão. Notou minha mudança de comportamento. Nunca disse uma palavra sequer. Apenas me olhava de um jeito que até hoje não sei descrever com muita segurança. Um misto de pena e satisfação talvez. Parecia me estudar a cada movimento. A cada pesadelo ou suspiro.
O sexo já não era o mesmo. Ainda se mantinha voraz e delicioso, mas não tinha mais o carinho do início. Era cada vez mais sexo e menos amor.
E foi mudando a cada noite, até o dia em que meu corpo começou a se transformar. Sentia-me humilhada. Meu amor pisado impiedosamente por sua indiferença e seu sarcasmo. Acho que a vontade inútil de esquecê-lo e a sede de vingança desencadearam a metamorfose. Notei diferenças a cada dia em meu corpo. Nos primeiros dias, as unhas ficaram amareladas, assim como a minha pele. Meus cabelos tomaram um tom esverdeado e os seus fios engrossaram.
Eu não queria mais encarar o espelho, pois meu olhar se refletia nele como o olhar dos loucos; vazio e distante. Sentia dificuldade em engolir. Já não me alimentava e na boca um gosto de sangue constante.
Na minha última noite dentro da casa, minhas pernas e braços enrijeceram e ele não quis fazer amor comigo. Adormeci...
Minhas raízes agora esbarram nas de outras antigas paixões. O bosque ao redor de sua casa está repleto de nós. Há quem pense que somos apenas árvores com feições humanas. Uma sinistra brincadeira da natureza.
No alto das copas, folhas de outono desgarrando-se dos galhos, livres de todo o resto. Mas no interior da terra minhas pernas/raízes ainda tentam alcançá-lo.
