quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Intercâmbio Racial

* Parceria de Ravenna Raven e M. D. Amado

Não havia sangue em teu corpo. E não me refiro a feridas ou sangue de outras pessoas. Realmente não havia sangue circulando em suas veias. Teu olhar era tão negro quanto a própria cor de teus olhos. O toque gelado da ponta de seus dedos em meu rosto, me preenchia com uma sensação mista de medo e tesão. O beijo, ao contrário, era inexplicavelmente quente. Muito quente. E digo isso também de forma figurada.

Não me recordo como fui parar em seus braços. Minha última lembrança de vida é a de estar voltando para casa, de madrugada, cochilando no metrô. A última voz humana que ouvi foi do condutor anunciando a estação Praça da Árvore. Depois disso, não consegui mais abrir os olhos por um bom tempo. Sentia frio. Muito frio. Sabia que estava deitado e nu, sobre alguma superfície áspera e morna, contrastando com o ambiente gelado ao meu redor. Quando ouvi sua voz em meus ouvidos, consegui então abrir os olhos e pude vê-la pela primeira vez. Pavor e excitação. Beleza e monstruosidade... Ainda não consigo definir bem o que sinto quando a vejo.

Ela me tomou pelas mãos, me ergueu e me disse algo que nunca mais poderei esquecer...

“Como é estar do lado errado da estaca, caçador?” – a criatura transmutada em mulher solta um sorriso pelos lábios vermelhos. “Bastante ousado, mas um tanto imaturo.”

Senti-me como um rato entre uma parede e um faminto felino de saias. Todo o meu ser pedia para empurrar esta mulher e sair correndo com todas as minhas forças, mas algo me impedia de desviar os olhos dos seus seios e isso estava evidente no volume crescente em minhas calças. Esta resposta me causou certa confusão, pois nos meus estudos os vampiros eram tidos como criaturas anaeróbicas e assexuadas.

“Os seus estudos são meramente humanos, caçador”. – disse como se lesse meus pensamentos. “O real entendimento da nossa raça não se encontra em grimórios ensebados de abadias ou círculos secretos de velhos anciãos. Para entender nossa espécie, olhe-se no espelho e veja sua história. Matando seu próximo, enganando, pilhando. Sua espécie é tão semelhante a nossa que poderíamos conviver lado a lado... mas quem domina o mundo hoje?”

Sinto um gosto amargo na minha garganta e tento articular uma desculpa, que agoniza e morre. Levanto-me e no mesmo momento uma força invisível me arremessa ao chão. A vampira continua sua história.

“Hoje você caminhou um passo glorioso no entendimento dos vampiros, caçador. Sabe o que somos, sente a nossa sede e agora vai sentir como é nossa morte. Pense nisso como um intercâmbio racial”. – a vampira então quebrou o assoalho como se fosse uma placa de isopor e saltou dentro do buraco, levando consigo a cortina pesada e empoeirada do quarto.

O sol invadiu o recinto como uma fera assassina e o caçador mal teve tempo de se esconder antes de explodir numa nuvem de cinzas negras. De dentro do buraco, a voz suave da vampira ecoava pelo quarto abandonado como se fosse uma espécie de maledicência.

“Vampiros... humanos... quem são os verdadeiros monstros”?

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Sangrento Desejo


* Parceria de Nana B. Poetisa e M. D. Amado

― Pensamentos sombrios e pecaminosos invadem minha alma. Beijos cálidos e carícias intensas... Corpos em êxtase transpirando em volúpia, cobertos de suores mornos e úmidos. Bocas e ardores, sentidos e calores. Mas, você não está aqui para aplacar a minha sede!

― Do lado de cá, vejo as imagens do teu desejo, como se você as projetasse em meu suor. A cama amanhece molhada da vontade que nos é compartilhada. Bocas distantes, mas o teu gosto ainda invade minhas sensações.

― Foges de nosso destino, zombando com escárnio do meu amor... Por que ainda te amo, por que a cada noite, ainda espero você chegar cobrindo meu corpo com o calor da sua carne macia?

― Porque bebeste do meu sangue. Quando te dei minhas veias pulsando vida eterna, você se alimentou da vida que em mim sustenta a capacidade de amar. É desse poço que tiras a água que te sacia essa sede. Mas agora... Preso aqui, não posso te satisfazer. Julgo que devo te libertar para que encontre em outro corpo, o alimento da tua fome.

― Esta é a resposta que tens para mim? Jogar em minha face o presente da Eternidade que dei a ti, como se nada fosse, além de maldita sentença? Ingrato sois, mortal e tola fui em pensar que uma criatura como vós, soubesse valorizar tamanho dom. Mortais não sabem o que é amar, são tolos, vãos e fúteis. Passam suas vidas miseráveis achando que fazem algo de relevante, que contribuem, que sabem, que criam, que amam. Malditos tolos, desprezíveis mortais!

― Justamente por ser um mortal, é que não posso fazer nada para reverter essa situação. Se é que ainda sou um mero mortal... Já não sei o que sou ou o que faço do que restou de minha vida. Se nem você consegue entrar aqui para me libertar, que posso fazer? Prefere nutrir esse amor a distância, sem tempo nem verbo? Sem toques e carícias, ou sem mesmo a liberdade do calor de nossos corpos? Só quero te ver livre para amar, pois sei que o amor está em tua essência e sem ele teus olhos ficam menos brilhantes.

― Pensei, tolo... Que fosses o amor da minha vida! Aquele que secaria minhas lágrimas rubras, quando a dor da Eterna solidão tomasse conta de meu coração sombrio.

― E sou... Por ti, farei o que nunca pensei que fosse capaz de fazer. Darei um fim a todos que pensam me proteger. Sou filho dessa casa... E como tal, sou também seu dono. Convido você a entrar... Me ajude a ficar livre para você. Quero sentir novamente os arrepios de teus pelos em meu rosto. Quero o gosto de teus fluídos em minha pele... Venha logo. Eu te convido a entrar em minha casa.

― Então, abra a porta, "Escolhido"... Venha comigo e não olhes para trás, amado. Agora seremos um e na vida Eterna que nos espera, nosso amor sem fim, será repleto de vida, não da morte... Do fim decrépito que apenas os mortais esperam. Beijos latejantes selarão nossa cumplicidade a cada manhã, carícias ardentes... Nossa promessa vespertina. E a cada dia, a felicidade que se renova nos enchendo de amor Infinito. Nossos corpos entrelaçados cobertos de volúpia, enquanto as eras se movem... Para sempre, Eternamente!

domingo, 22 de novembro de 2009

Perfume de Rosas Azuis

* Parceria de Natacia Araújo e M. D. Amado

É como água de lastro
Equilibra choro e riso
Atormenta e atrai
Abala
Como bala na agulha
Num clique, um estampido
Risca o seu fim

É como um abraço ao verso
Exaurido em estrofes e culpa
Transgredindo e estagnando o passado
Reconhece
Erguendo antigos punhos
Suspirando trégua entre farelos e o tempo
Reinventando despedidas

É como seiva escorrendo no orvalho
Misturando sangue e lágrimas
Alimentando e se esvaindo
Sobrepõe
Cobrindo os erros e mágoas
Respirando o aroma da chuva
Sujando-se com a terra molhada

É como a última migalha
Em uma respiração que fere
Acomodando-se em escamas e perdão
Habita
Trancando afetos e feridas
Edificando lembranças projetadas e acesas
Traçando cada estrada no papel

É como a flor no peito
Enfeitando o vestido liso
Perfumando sem perfumar
Embeleza
Transformando sentimentos
Pisando no ódio com pés de amizade
Reinventando vontades

É como faísca cordial
Entranhada no vazio desarmado
Estagnando afetos e ódio
Escraviza
Quando os membros lembram
Persuadindo arrepios trôpegos
Trancando saudades para cruzar em novas moradas

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Eu vento e canto um lilás que toca o sentimento


* Parceria de Georgette Silen e M. D. Amado

— Tempestades e trovões?

— Não, por enquanto só ventos e assovios

— Quando será que chegam os acordes? Esse vento não canta há mais de semana. Tenho saudade das notícias que trazia. Das formas que ele molda na areia da praia. O que você consegue ver do céu agora?

— Do real que me cerca ou do metafórico que me invade?

— A realidade não me satisfaz mais... Sabes que meus olhos enxergam apenas as cores do imaginário.

— Se é do imaginário que necessita, então posso afirmar: o céu traz a cor de um dia que projeta seus anseios e desejos, mas que teme a incerteza das monções que ainda podem nublá-lo pela inconstância.

— Será que essa cor é a que ouso imaginar em meus devaneios? Que vocês chamam de lilás... Eu chamo de sonho... Ah, como eu queria uma vez apenas ver a cor de teus olhos, ainda que nublados pelo meu medo.

— O lilás, sonho de seus devaneios colore a palheta que avisto com a cor dos meus olhos que não sabes identificar... Será por que as pálpebras se fecham em deleite, ou por que querem reter a ilusão, despertar a maré das curiosas marolas que revoltam o pensamento aguçado pelo desejo impossível?

— Nada mais impossível, no meu caso, que reter a ilusão... Pois é dela que sobrevivi até hoje. Mesmo agora, que me faltam poucas horas para partir, vivo esse canto improvisado da chuva que ouço na janela. Impossível... O que é impossível para essa mente, que sempre contou histórias mentirosas? Que enfeitou a imobilidade e a cegueira com os movimentos dos braços que sempre me acolheram?

— Nesse caso, seja então o viajante primeiro das palavras que conta. Desliza pelos fonemas, adere ao sujeito, renega o predicado inexistente, faça do verbo sua maior motivação? Desejo? Não... Desejar é o correto... Pois com isso verás que o céu, onde quer que estejas, terá o tom e o sabor com que pintá-lo. E os olhos que povoam sua mente, inconscientemente o acalentarão com os braços que nunca te abandonaram.

— Tuas mãos... O toque de tuas mãos seguirá comigo, e disso podes ter a certeza. O amor que me nunca me prometeu, invadiu meu corpo por todos esses anos. A companhia que nunca te pedi sempre me fez mais humano. Se nunca me revoltei com aquele que criou os ventos que sempre cantaram para mim, foi porque tua vida nunca deixou a minha. E ai eu vi o motivo e a razão de tudo... Sem você eu não seria nada além de um cego paralítico... E hoje vou embora, como um homem. A chuva está diminuindo... O vento parou de cantar... Ou sou eu que começo a deslizar do mundo? O negrume que sempre encontrei agora é cinza... Vejo tons de cinza em volta de suas mãos... O teu rosto é tão...

— Meu rosto é o mesmo, mas que agora verte a dor de vê-lo livre, a partir. Sei que estás inteiro, mas deixa em minha alma partes rasgadas, riscadas pela grafia de suas memórias... Nunca me pediste nada, mas nunca lhe neguei nem mesmo a ausência de seus desejos mudos... e mesmo agora, na despedida, não lhe negarei aquilo que mais preza.... Ouça a música dos ventos. O som agora é outro... Pois outro você é.

sábado, 14 de novembro de 2009

As Últimas Cartas

* Parceria de Suzy M. Hekamiah e M. D. Amado

Vamos dançar
Vamos querer parar o tempo
Vamos sempre ser as vítimas das horas
Tudo o que eu queria, era dormir para sempre
Mas tenho que acordar de um sonho maldito
Ninguém mais estará aqui quando eu despertar
O tempo decide por nós
Ame enquanto seus lábios ainda estão quentes

Venha dançar enquanto a melodia existe
Vamos acalmar as mãos ansiosas com palavras
Meu querido, doce e intocável
Meu tempo curto, traiçoeiro e indomável


Danço então sobre teus passos pequeninos
Seguindo o perfume de teus rodopios nas pontas dos pés
Não posso permitir que me toques, pois esse seria o teu fim
Sou tempo e passado, sou presente sentimento
E se eu te beijo é com os olhos
É desenhando uma linha invisível nos contornos de tua boca

Nosso baile se repete no templo de Chronos
Enquanto todos seguem com suas vidas, somos eternos dançarinos
Na melodia que ouviste, estão as minhas notas escorridas em lágrimas
Lidas na partitura do teu sorriso mais sincero

Vamos dançar, minha pequena dama dos olhos de céu
Ame enquanto teus braços ainda bailam nossa valsa perdida


Durante o tempo que movemos nossos pés
A serpente está sugerindo seu veneno pela primeira vez
Valerá a pena seguir os passos até o fim?

Mais algumas horas antes que a música pare
Antes que eu veja a verdadeira figura que se esconde por trás de sua máscara
Mais alguns instantes para tudo despencar
Somente por você
Veneno, loucura e paixão
Somos dois corações apostando a mortalidade em apenas uma noite
Em súplicas...
Que os céus nos ouçam, nos condenem
Mas isso é somente parte de nós
É mais que o veneno da serpente
Rastejamos nossas vidas
E na última melodia nos encontramos

Durante a noite eu chego sem avisar
Você esperou respostas de minhas cartas, eu sei
Mas o que preciso dizer não está no que a realidade pode suportar
Meu querido, doce e intocável
Somos parte do cenário imaginário
Até onde essa arte pode nos levar.

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Súplica


* Parceria de Natacia Araújo e M. D. Amado


Suplico
Complete-me
Tenho as trevas em meu manto
Trago a dor em minha voz
E ódio nos olhos

Imploro
Tenha a mim e terei a ti
Dou-lhe o poder para tirar a vida
Dou-lhe o sorriso sarcástico do psicopata
E o olhar gelado do dissimulado

Ofereço-lhe minha alma negra
Para que teu sonho embale
Rasgo minha carne e te dou de comer
E para beber lhe dou o meu ser

O que tens para mim?


Ofereço-te um azul instransponível, um azul que inebria todos os órgãos,
A loucura excedida por teus poros rasgados
Minha alma é luva
Escalando todas as inverdades

Consinto com tua súplica
Tua presença quase interminável
Nem você sabe,
Está na minha boca

Nossas almas se correspondem por versos
Lírios de morte consagrados
A boca lê desejo
Percorrendo sons do insano sono do verso

Farás de meu corpo teu alimento supremo?


Se assim desejas, farei de ti o meu banquete
Tua pele, boca... Teus dedos em meus lábios
O gosto das cores que jamais ousei experimentar
Sentirei teu azul em minha língua

Sabes que a escuridão não suporta cores?
Me fartar de teu corpo é minha sentença
Minha existência será então contada em lendas
E os homens não mais morrerão

Será o meu fim, meu doce fim
Mas ainda assim suplico, imploro
Tenha a mim para que eu viva sempre em ti
Complete-me
Complete-nos


Nasço do mesmo escuro que guarda tua sentença
Por entre ossos tênues construo alicerces de um medo que sempre penetra
Minha solidão é ereta, é firme, tem raiz, textura e cor
Meu corpo animal estranho em mim

Tenho em mim que tua fome seja de versos mortos
É a escuridão que docemente me sabota
Logo, saberás do medo, este amigo ingrato que nos toma os limites
Este mesmo tirano que nos liberta da razão...

Desejo então, te olhar sem grades
-ele já não me ataca-
Manso, audaz, na perspicácia de seu silêncio...
Perambulo hoje em teu vazio

Que estrada leva a nós?


Meu único medo é não poder ver mais a tua luz
Essa mesma luz que me trouxe até você
Perguntas que estrada leva a nós
Mas qual estrada não tem nossas pegadas?

Eu vim pelo caminho do teu desejo
Atravessei a ponte que separa teus princípios
Segui o ronco de tua fome carnal
Ávida
Puramente impura

Estrada de desejos profanos
De pensamentos insanos
Onde nos unimos sem pudores
E onde me perco em teus pensamentos
Logo eu, me perder por você, logo eu...

Que queres você de mim? O que queres com a morte?


Desejo da morte, o gozo sereno dos esquecidos
Termina o tempo de estancar artifícios
E quanto a mim, desejo as mãos pintando as sementes de tuas vontades
Queremos a ausência de luz , tragos de insurreição
Tens mesmo um lugar pra mim?
Eu quero é eternidade
Despejar o caos
De todas as certezas violentas
Deleito-me das tuas sombras que racham o chão

Todos os teus labirintos são tecidos
Esculpindo as dores de toda transmutação
Meus dias estão sedentos desta doença tecida por tua dor
Tenha misericórdia de meus restos de pureza

Agora? O corpo padece de alma!


Tenho todos os lugares para você
Por que esperar mais? Venha
Me dê a mão
Suba em minha carruagem

Eu lhe dou minha alma eternamente negra
Vista tua pele com minhas sombras
E eu me rendo a tua invasão de luz
Me entregarei ao que chamas de amor

Atenderei teu pedido e teu corpo será meu
E sentirás as mais belas e arrepiantes sensações
Enquanto sugas a minh´alma até que eu me desfaça
Terás a mim eternamente. E eu a ti... Etereamente

Chego ao meu fim e ao seu sempre.

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Último Suspiro



* Parceria de Luciana Fátima e M. D. Amado

A argêntea luz do luar espalhava-se pelo lago escuro. O barulho da cidade parecia não penetrar ali. Havia uma espécie de barreira criada pelo pedaço de natureza para proteger o interior daquele recanto.

Para quem observasse a cena, poderia parecer um sonho, um devaneio onírico, ou a simples paisagem de um filme de suspense. O ruflar de asas rompeu o silêncio por um instante. A coruja voou de seu esconderijo para a noite vazia. Após um momento de intensa quietude, algo inusitado começou a acontecer no lago.

As águas, antes calmas, deixaram de espelhar a imensidão do céu estrelado. De um lugar indeterminado, algumas bolhas surgiram e, em pouco tempo, o lago todo estava em ebulição. Quando o estranho fenômeno acalmou, lentamente, uma figura feminina emergiu.

Os longos cabelos encharcados cobriam-lhe as costas, alcançando os quadris. A nudez coberta pela água do lago era banhada pelos raios do luar. As gotas escorriam pelo seu corpo e morriam na grama. Os pés pisavam delicadamente a grama. Era uma visão fantástica e inesperada...

Em tempos de pestes avassaladoras e batalhas inúteis e sangrentas, as pessoas se acostumaram com imagens terríveis, barbáries e o cheiro de podre ou de carne queimada invadindo suas narinas. E ao ver diante de seus olhos aquela imagem quase sagrada, embora com nuances de profanação, os moradores daquela vila se transformaram em estátuas de carne, por alguns segundos. Não era apenas a beleza daquele corpo feminino. Não era somente o desejo sexual aflorando nos homens e até mesmo em algumas mulheres. Talvez fosse a calma no andar, ou a doce fragrância que pairava no ar.

Os olhos negros declamavam poesias mudas. Vistos por alguns com brilhos intensos no olhar, e por outros com o opaco das trevas abissais. Estes últimos sucumbiam a cada um dos passos elegantemente dados por ela. Caiam mortos, de olhos abertos e o corpo agora leve, sem o peso de seus espíritos pecadores.

Ela veio buscá-los... A todos eles. A alguns fora concedido o privilégio de se apaixonarem por ela, antes da partida. Um último sorriso foi desenhado nos rostos daqueles miseráveis.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Lágrimas sob a lápide


* Parceria de Kelly Rodrigues e M. D. Amado

Tive seu corpo em minhas mãos, em minha boca
Era como veludo carmim, sabor licor de chocolate
Desejos e pecados misturados sob o lençol
Tive comigo sua língua percorrendo minha pele
Invadindo minhas vontades, molhando os pudores

Hoje ela é sede de segredos infames
Fome de mãos e cabelos molhados
É cheiro de sexo durante a madrugada de lembranças
Nas mãos hoje tenho apenas a saudade
Os toques em sua pele fazem a volta no tempo

O corpo apodrecido jaz sob a lápide cinza de seus olhos
Os olhos já não me hipnotizam mais
Ela se foi e levou meu desejo supremo
Levou o sexo que trazia vibrações e arrepios

Me resta o sexo pelo sexo, pela vontade do nada
Sofro com os acordes da música em soluços no travesseiro
Ouço os tons de sua voz em gemidos de prazer e carinho
Sons que não voltam mais... Hoje são pios de coruja
Corvos talvez...

Do outro lado ela se faz errante
Seguindo sua estrada vivendo o inconstante
Seu olhar ja não possui mais brilho
Seu toque de tão doce tornara-se amargo
Seu semblante sutil deixara de existir

Ela se perdeu no meio da passagem
Não se vê mais como uma vida
Subentende-se que já não mais habita este corpo tão belo
Resgata da memória a sensação de fracasso
Sua existência que outrora era constante
agora passara a ser apenas uma triste recordação

Debulhou-se em lágrimas ao se deparar com a sua fraqueza
Ela sentia cada sentir triste do seu amor
Percebia a sensação constante de vazio que assombrava aquele coração que tanto a ama
Sucumbia a dor em cada lágrima derramada em vosso nome

Deitava-se ao seu lado na tentativa frustrante de consolo
Tocava sua pele sem nada sentir
O olhava nos olhos na tentativa de se fazer notar
Buscava através do sussurro contar-lhe que jamais o havia deixado

Mas de tudo o nada era o resultado
E seus sonhos se perderam na imensidão da eternidade...